Por que as pessoas mentem

“A mentira é muita vez tão involuntária como a transpiração”, constata Bentinho, em Dom Casmurro, ao surpreender a si próprio escondendo da mãe o amor por Capitu. Como de costume, Machado de Assis retrata uma verdade: mentimos o tempo todo, até sem perceber. Mentimos sobre nossa altura, nosso peso, nossa idade. Mentimos para nós mesmos, para suportar um recalque. Mentimos para nossos pais, para tranquilizá-los, e para nossos filhos, para que não sofram. Mentimos para os amigos, para não lhes ferir a autoestima, e para o chefe, para justificar um atraso. Mentimos para o guarda, para não tomar uma multa, e para o Fisco, para pagar menos impostos. Atletas mentem para competir dopados, investigadores mentem para apanhar criminosos, políticos mentem… por vários motivos. Há mentiras inofensivas; outras mudam a vida de pessoas e até provocam guerras. O fascínio despertado pelo caso de Paula Oliveira, acusada de inventar um ataque neonazista na Suíça, se deve em parte a isso – à consciência do poder da mentira em nossa vida.

Apesar de condenada pela sociedade, a mentira chega a ser, em algumas situações, necessária para o convívio social – como exemplifica de forma caricata o filme O mentiroso, que arrecadou US$ 300 milhões em 1997. Na comédia, o protagonista, vivido por Jim Carrey, é vítima de um feitiço que o impede de mentir e destrói sua vida. A mentira funciona para preservar a privacidade ou os vínculos afetivos. Trocar a franqueza por uma meia verdade é frequentemente visto como um gesto galante. “Muitas vezes as mentiras são benéficas”, afirma o psicólogo Jeff Hancock, professor de comunicação da Universidade Cornell, nos Estados Unidos. Ele estuda como e por que mentimos. Suas pesquisas mostram que os humanos mentem o tempo todo – e que isso não é necessariamente alarmante. Na maioria das vezes, mentimos porque isso torna a vida mais fácil.

O escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900) disse certa vez: “O objetivo do mentiroso é simplesmente encantar, deliciar, dar prazer. Ele é a própria base da sociedade civilizada”. Na Grécia Antiga, a mentira era vista como forma de criatividade. “Mentir de forma consciente e voluntária tem mais valor do que dizer a verdade de forma involuntária”, afirmou Platão (século V a.C.). A ficção teve um papel importante no desenvolvimento da sociedade. “Acreditar na arte, na literatura e na mitologia ajudou o homem a imaginar um mundo melhor”, diz a filósofa italiana Maria Bettetini, autora do livro Breve storia della bugia: da Ulisse a Pinocchio (Breve história da mentira: de Ulisses a Pinocchio), ainda inédito no Brasil. “Sem esse tipo de mentira deliberada, o homem não teria impulso criativo e seria igual aos animais”.

A ciência confirma a relação entre mentira e esforço intelectual. Em 2000, pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, chegaram à conclusão de que certas regiões do cérebro mostram maior atividade diante da mentira. Um aparelho de ressonância magnética monitorou os cérebros dos participantes. Eles precisavam mentir sobre cartas de baralho que levavam no bolso. O resultado mostrou que o córtex frontal (área ligada à atenção e à concentração) era mais estimulado quando os voluntários não diziam a verdade. A conclusão seria: o default do cérebro é a sinceridade. Mentir requer um esforço extra de organização. “A mentira acompanhou a evolução do homem”, diz o filósofo americano David Smith, autor do livro Por que mentimos? Os fundamentos biológicos e psicológicos da mentira (editora Campus). “Sem essa estratégia, as relações em sociedade seriam um desastre”.

A evolução também pode explicar por que o homem continua mentindo para se defender. Em 2002, um estudo da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos, mostrou que as pessoas mentem com facilidade quando o objetivo é criar uma imagem positiva de si. A experiência funcionou assim: em um quarto fechado, dois estranhos eram colocados frente a frente por dez minutos. A conversa era filmada. Depois, os participantes assistiam ao vídeo para identificar os trechos imprecisos do diálogo. A pesquisa concluiu que 60% dos entrevistados mentiam pelo menos uma vez; em média, deram 2,92 informações incorretas em apenas dez minutos – desde banalidades, como dizer que se gosta de alguém que não se aprecia, até patranhas cabeludas. Uma das cobaias fingiu ser um astro do rock.

As pequenas fraudes toleradas pela sociedade são bem diferentes de outras configurações da mentira, mais perigosas: o autoengano e a mitomania. Sem distinção entre realidade e ficção, a mentira pode levar a uma patologia semelhante à do cleptomaníaco, que rouba sem necessidade. O autoengano até pode ter um aspecto positivo. “O doente que, apesar de toda a evidência em contrário, sustenta no íntimo de sua alma a convicção cega, firme e inabalável de que vai conseguir vencer o mal parece aumentar suas chances objetivas de recuperação”, escreveu o filósofo e economista Eduardo Giannetti da Fonseca no livro Auto-engano (Companhia das Letras). Mas, quando ele prejudica a vida de terceiros, a punição é o recurso da sociedade para preservar sua coesão.

Alguns casos de mentira patológica, como os descritos nestas páginas, se tornaram notícias de repercussão internacional. Um tipo de fraude comum no noticiário é a história do joão-ninguém que se faz passar por milionário ou celebridade e consegue enganar muitos, durante muito tempo. Em julho de 2008, pouco depois de aceitar os termos do divórcio, em que embolsou US$ 800 mil, o milionário Clark Rockefeller sequestrou sua filha de 7 anos e fugiu de Boston. Ao investigar o caso, o FBI descobriu que o sequestrador não era milionário, tampouco um Rockefeller. Seu nome verdadeiro era Christian Karl Gerhartsreiter, um alemão de 47 anos que chegara aos Estados Unidos como estudante. Por 30 anos, alternando identidades falsas, ele havia enganado gente endinheirada em várias cidades e casou-se com uma milionária, executiva de uma importante firma de consultoria. Antes de se passar por um Rockefeller, ele foi Christopher Crowe e Christopher Chichester – um fictício nobre inglês. Sob esse disfarce, teria assassinado um casal que desconfiou de sua lorota. Em agosto passado, Clark Rockefeller foi preso em Baltimore, onde se escondia como um anódino “Charles Smith”.

As farsas criadas pela imaginação de Gerhartsreiter podem parecer inverossímeis. Como alguém é capaz de viver enganando tantos por tanto tempo sem levantar suspeitas? Mas o caso não só é real como recorrente. Seu protagonista, digno de uma obra de ficção como O talentoso Ripley, de Patricia Highsmith – Ripley é o arquétipo do mitômano –, poderia estar pilotando aviões sem ter licença para isso, posando ao lado de celebridades como se fosse uma, escrevendo livros “autobiográficos” baseados em fatos que não viveu ou trabalhando num jornal de prestígio como o New York Times. Em todas essas situações, um mitômano se fez passar por quem não era para levar alguma vantagem – seja financeira ou emocional.

Tentativas de ser 100% convincente em meio a um engodo normalmente denunciam má-fé. A mitomania, que pode ser uma doença ou um sintoma de certas condições psiquiátricas (leia o quadro abaixo), leva a pessoa a acreditar na história que conta, sem nenhum senso crítico. “A ficção mitomaníaca envolve concepções de grandeza, de ascendência familiar excepcional, de capacidades e feitos extraordinários”, afirma a psiquiatra forense Hilda Morana, presidente do Departamento de Ética e Psiquiatria Legal da Associação Brasileira de Psiquiatria. Segundo ela, essas fabulações podem levar a cometer crimes e fraudes, como o exercício ilegal de certas profissões.

Um dos casos mais famosos de mitomania é o de Frank Abagnale Jr., cuja história foi levada ao cinema por Steven Spielberg no filme Prenda-me se for capaz, com Leonardo DiCaprio. Aos 17 anos, Abagnale Jr. já havia acumulado mais de US$ 40 mil com fraudes bancárias e viajado por dezenas de países como falso piloto de avião. Para fugir da Justiça, ele se passou por médico, professor e advogado, sempre com nomes falsos. Até ser preso, aos 21 anos, na França, ele passara US$ 2,5 milhões em cheques falsos. Frank Abagnale Jr. fez um acordo com o FBI e ganhou a liberdade em troca de ajudar na captura de outros falsários – o que tem feito desde 1974. Depois de tanto enganar e mentir, ele parece ter encontrado sua vocação.

No Brasil, um caso parecido ganhou destaque. Antes de ser preso, aos 25 anos, o estelionatário Marcelo Nascimento da Rocha fingiu ser oficial do Exército, policial e guitarrista da banda Engenheiros do Hawaii, num total de 16 identidades diferentes. Seu golpe mais famoso ocorreu em 2001, quando fingiu ser filho do dono da companhia aérea Gol. Com o nome de Henrique Constantino, ele teve acesso ao camarote vip de um evento patrocinado pela companhia. Conheceu atrizes famosas, deu entrevistas para a TV, alugou um jatinho e um helicóptero sem gastar nada. A farsa só terminou com a prisão do golpista, acusado de estelionato e falsidade ideológica, entre outros crimes.

Segundo a mãe do paranaense, ele tem mania de grandeza desde pequeno. Psiquiatras que o examinaram afirmam que ele tem personalidade psicopática: incorpora personagens e vive em uma realidade paralela. Em 2005, ainda na cadeia, lançou o livro Vips – Histórias reais de um mentiroso, em que conta histórias de seus golpes e truques que o ajudaram a se passar por pessoas famosas. O caso pode ser um exemplo do que os psiquiatras definem como “pseudologia fantástica”, uma tentativa de impor as próprias fantasias aos demais para despertar admiração. “É o desejo de chamar a atenção, seduzir e ser valorizado”, diz Hilda Morana. A pseudologia (algo que é lógico apenas aparentemente) estaria no meio do caminho entre a mentira simples e o delírio. “É encontrada em personalidades imaturas, histriônicas e teatrais”.

Nem toda mentira de graves consequências, porém, é patológica. Talvez o caso mais famoso na história contemporânea seja de Bill Clinton. Ele não falsificou sua identidade nem criou um mundo de fantasia no qual teria mais poder do que na vida real – dificilmente conseguiria, sendo o presidente dos Estados Unidos. Mas em 1998 Clinton mentiu sobre sua intimidade, diante das câmeras de TV, ao negar o relacionamento sexual com a estagiária Monica Lewinsky. Escapou por pouco de perder o cargo por causa da mentira.

Não era um caso de mitomania, mas, para os estudiosos do comportamento humano, Clinton pode ser considerado um mentiroso compulsivo. Ele mentiu quando seria mais conveniente ter dito a verdade. Ao dizer “Eu não tive relações sexuais com aquela mulher”, enquanto movia assertivamente o indicador direito para negar com veemência as acusações, Clinton provavelmente não pensava trair a confiança da nação que o elegera – talvez nem a da mulher, Hillary, com quem continua casado. Paul Ekman, professor de psicologia da Universidade da Califórnia, em São Francisco, estudioso da mentira e dos sinais que revelam quando alguém mente, observou os gestos, a expressão facial e as falas de Clinton. Para Ekman, o presidente se traiu ao chamar Lewinsky de “aquela mulher” (uma linguagem forçosamente distante), ao modular a voz para um tom mais suave ao encerrar a frase e ao usar o dedo indicador. Como Machado de Assis já percebera um século atrás, a mentira, como a transpiração, é involuntária – e por isso também ela pode ser desmascarada.

Fonte – Época 562 – 20/02/2009

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~ por Pelegrino em 01/03/2009.

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